Quando o cuidado começa pela informação: o médico combate a desinformação em saúde
Na era da desinformação, o médico tem o papel essencial como agente de confiança, mediador do conhecimento científico e promotor da segurança informacional na assistência à saúde.
Nunca foi tão fácil ter acesso à informação e, ao mesmo tempo, tão difícil saber em quem confiar. Nesse cenário, em meio a fake news sobre vacinas, curas milagrosas de doenças e desconfiança generalizada na ciência, o médico pode desempenhar um papel que vai além da clínica, atuando também como guardião da informação em saúde.¹,²
Mais do que deter conhecimento técnico, o profissional de saúde atual precisa saber comunicar com empatia, precisão e responsabilidade. Afinal, a informação é um recurso estratégico para o cuidado, a gestão, o controle social e a formulação de políticas públicas.¹
Por isso, a comunicação em saúde não se resume à transmissão de dados: envolve ética, sensibilidade e compromisso com a compreensão do paciente.²
Digitalização da saúde e o desafio da segurança da informação
Entre os ganhos apontados para a assistência, a inteligência artificial aplicada à medicina tem potencial de tornar o atendimento mais eficiente, com menor tempo de espera e custos operacionais reduzidos.¹
A tecnologia também pode favorecer maior precisão diagnóstica, dar suporte à organização das informações de saúde e contribuir para o ritmo das descobertas científicas.¹ Na prática, isso significa apoiar profissionais em tarefas como interpretação de exames de imagem, análise de prontuários, identificação de padrões clínicos e monitoramento de indicadores assistenciais.¹-³
A aplicação também ganha relevância no enfrentamento de doenças tropicais, frequentes em regiões com infraestrutura limitada.³ Algoritmos capazes de analisar grandes conjuntos de dados de pacientes associados a fatores ambientais podem favorecer a detecção precoce de surtos.³ Entre outras possibilidades, destacam-se o apoio ao diagnóstico de enfermidades como dengue e malária, a contribuição em estudos epidemiológicos para identificação de fatores de risco e o potencial de agilizar a pesquisa de novos medicamentos e vacinas.³
Inteligência artificial na saúde: quais limitações e riscos a considerar?
Com a expansão da medicina digital, incluindo telessaúde, prontuário eletrônico e prescrição digital, surgem novas exigências no campo da proteção da informação sensível.³
O Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) destaca que esse avanço demanda uma atuação segura, ética e responsável dos profissionais, especialmente quanto à autenticidade, integridade e confidencialidade dos dados médicos.³
Para isso, ferramentas como o Validador de Documentos Digitais, certificado digital no padrão ICP-Brasil e assinatura qualificada são apontadas como essenciais para garantir a autenticidade de documentos clínicos. Nesse contexto, o médico assume um protagonismo importante, fazendo a ponte entre tecnologia e ética profissional, oferecendo ao paciente segurança clínica e também informacional.³
A desinformação como ameaça à saúde pública
A desinformação não é apenas um problema de comunicação, mas sim um risco real à saúde. De acordo com o Ministério da Saúde, notícias falsas sobre doenças, tratamentos e vacinas podem gerar medo, atrasar o diagnóstico, incentivar práticas perigosas e comprometer a confiança no SUS.⁴
Com base nas evidências mais recentes, especialistas em saúde pública têm destacado que o enfrentamento à desinformação requer estruturas de vigilância permanentes, semelhantes às utilizadas para monitorar surtos de doenças. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a chamada “infodemia”, a sobrecarga de informações verdadeiras e falsas circulando simultaneamente, deve ser tratada como uma ameaça contínua à saúde coletiva5
Pesquisas recentes publicadas no Journal of Medical Internet Research (JMIR, 2024) reforçam essa visão ao demonstrar que a desinformação tem levado a desfechos negativos reais, como aumento da hesitação vacinal, atrasos em diagnósticos e uso indevido de terapias sem comprovação científica. Esses achados reforçam que combater a desinformação é uma forma de promoção da saúde, exigindo ação coordenada entre profissionais, instituições e gestores públicos.
O médico como fonte confiável e agente de orientação
Felizmente, os profissionais de saúde ainda figuram entre os grupos com maior credibilidade perante a população.⁴ Isso torna o médico uma peça-chave no combate à desinformação: alguém capaz de dialogar com empatia, traduzir evidências em linguagem acessível e orientar os pacientes com base em fontes seguras.4
Ao lidar com informações falsas, os médicos seguem sempre a recomendação é escutar antes de corrigir. Mais eficaz do que o confronto é o diálogo respeitoso, que esclarece dúvidas e indica fontes seguras. O objetivo não é apenas desmentir, mas fortalecer a autonomia crítica do paciente e a confiança na ciência⁴.
Protagonismo com responsabilidade
A informação em saúde é parte fundamental do cuidado. E o médico, ao assumir a responsabilidade de comunicar com ética, proteger dados sensíveis e orientar com base em ciência, torna-se um agente de credibilidade e confiança na promoção da saúde.2
Referências:
1. CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO (CREMESP). Informação em saúde: fundamentos e aplicações. São Paulo: CREMESP, 2023. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/library/modulos/publicacoes/pdf/Informacao_em_ Saude%20_PORTAL.pdf. Acesso em: 30 out. 2025.
2. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Cartilha: Agentes de Saúde e de Informação. São Paulo: COSEMS-SP, 2021. Disponível em: https://www.cosemssp.org.br/wp-content/uploads/2021/05/Cartilha-Agentesde-Saude-e-de-Informacao_FINALdupla.pdf. Acesso em: 30 out. 2025.
3. FORTNER, Carlos Roberto. Medicina digital e segurança da informação. Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/iti/pt-br/centrais-de-conteudo/opiniao-do-diretorpresidente/medicina-digital-e-seguranca-da-informacao. Acesso em: 20 out. 2025.
4. BRASIL. Ministério da Saúde; FIOCRUZ; UFF. Desinformação sobre saúde: vamos enfrentar esse problema? Guia para profissionais de saúde. 2024. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/desinformacao-sobre-saude/. Acesso em: 20 out. 2025.
5. CHIOU, H.; VOEGELI, C.; WILHELM, E.; KOLIS, J.; BROOKMEYER, K.; PRYBYLSKI, D. The future of infodemic surveillance as public health surveillance. Emerging Infectious Diseases, Atlanta, v. 28, n. 13, p. 121–128, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.3201/eid2813.220696. Acesso em: 30 out. 2025.
6. KISA, S.; KISA, A. A comprehensive analysis of COVID-19 misinformation, public health impacts, and communication strategies: scoping review. Journal of Medical Internet Research, Toronto, v. 26, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.2196/56931. Acesso em: 30 out. 2025.
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